Inclusão de refugiados no mercado de trabalho entra na pauta ESG das empresas – 09/10/2021 – Mercado


O Brasil tem sido um destino cada vez mais frequente de refugiados nos últimos anos, e um dos principais desafios que esse público enfrenta é a inserção no mercado de trabalho. A questão esbarra menos em obstáculos burocráticos, e mais em problemas como preconceito e desinformação, mas esse cenário vem mudando.

Em meio à febre ESG (sigla em inglês para boas práticas ambientais, sociais e de governança), algumas companhias têm buscado na contratação de pessoas refugiadas uma forma de avançar nos temas de diversidade, inclusão e direitos humanos.

Desde 2014, a Sodexo On-site, braço da multinacional francesa que oferece a empresas serviços de alimentação e gestão de “facilities” —como recepção, limpeza e jardinagem—, tem iniciativas para incluir esse público em seu quadro.

Atualmente, a companhia conta com mais de 260 funcionários refugiados aqui no Brasil.

“São pessoas que vieram da Síria, Congo, Angola, Paquistão, Afeganistão, Haiti —que agora novamente passou por um terremoto— e da Venezuela também”, explica Lilian Rauld, head de diversidade e inclusão da Sodexo On-site Brasil.

Rauld é chilena e veio transferida para o Brasil em 2013, ano em que começou a estudar a inserção da mão de obra dos refugiados nas organizações brasileiras. O tema virou o trabalho de conclusão de sua MBA e, em 2014, ela decidiu levar a ideia para a Sodexo.

“Na época, as pessoas me falavam ‘como vou contratar um refugiado que cometeu um crime, matou alguém na Síria’, e eu precisava explicar que as pessoas refugiadas não cometeram crimes e estão fugindo, elas estão aqui por perseguição, porque não podem ser livres em seu país de origem”, afirma.

Segundo Lilian, foi preciso fazer um trabalho de comunicação interna num primeiro momento, porque era um assunto que pouca gente conhecia.

Como 90% dos serviços que a Sodexo On-site oferece são dentro da estrutura do cliente, a maioria dos cargos ocupados por refugiados são operacionais, como recepcionistas e copeiros hospitalares.

Para Lilian, a agenda ESG e a inclusão de refugiados estão absolutamente conectadas —não só por uma questão de diversidade, mas de direitos humanos também. No entanto, na visão dela, o tema ainda é pouco trabalhado no ambiente corporativo.

“Eu vejo que as empresas estão muito tímidas ainda, infelizmente. Temos avançado no caminho da educação, de saber o que é um refugiado, o porquê dele estar aqui, mas temos avançado pouco em contratar e dar oportunidades.”

De acordo com dados do Conare (Comitê Nacional para os Refugiados), órgão vinculado ao Ministério da Justiça, o Brasil tinha 57.099 refugiados reconhecidos no final de 2020.

O país vinha numa crescente de pedidos de refúgio. Em menos de uma década, passou de 3.000 solicitações, em 2011, para mais de 82 mil em 2019, mas a tendência foi interrompida pela pandemia.

“A gente tem visto, nos últimos anos, um aumento no número de pessoas em busca de reconhecimento da condição de refúgio no Brasil, especialmente com o deslocamento de pessoas da Venezuela”, explica Paulo Sergio Almeida, oficial de meios de vida do Acnur, a agência da ONU para refugiados.

Segundo ele, o país já tem uma legislação avançada para lidar com o tema, garantindo direitos e formas de inserção socioeconômica não só para os refugiados, mas para quem ainda aguarda o reconhecimento dessa condição.

“Em grande parte das situações, as pessoas refugiadas deixam tudo para trás e têm que recomeçar do zero aqui. É fundamental que elas possam acessar direitos sociais, particularmente o mercado de trabalho”, afirma.

Almeida diz não haver entraves legais para a contratação. Na visão dele, as limitações são de ordem prática, que vão desde a dificuldade na revalidação do diploma, passando pela questão do idioma e pela ausência de rede de contatos no Brasil —onde a indicação pesa na hora de conseguir um emprego.

Outro obstáculo é a discriminação, mas há indícios de avanços nesse sentido. Segundo Almeida, as empresas estão mais interessadas em incorporar pessoas refugiadas em suas políticas de diversidade e inclusão. A questão é fazer com que mais companhias adotem essas iniciativas.

Para estimular o envolvimento do setor privado com o tema, o Acnur e o Pacto Global lançaram, em 2019, a plataforma Empresas com Refugiados. O projeto divulga boas práticas em diversas áreas, desde a contratação até iniciativas de capacitação profissional e inclusão de empreendedores refugiados na cadeia de fornecimento.

Uma das empresas apoiadoras é a Unidas, do setor de aluguel de veículos. Em 2020, a companhia arcou com as despesas de formação de 70 mulheres venezuelanas no programa Empoderando Refugiadas, iniciativa do Acnur com a Rede Brasil do Pacto Global e a ONU Mulheres.

Para se qualificarem a uma vaga em empresas brasileiras , as mulheres aprendem sobre vendas, atendimento e rotinas de escritório, entre outros conteúdos .

“Da turma que a gente formou com 70 refugiadas, contratamos duas, que estão trabalhando em lojas de rent a car [locação diária] em Porto Alegre e no Rio de Janeiro”, diz Cynthia Tamura, head de gente e gestão da Unidas.

Em 2021, a Unidas também patrocinou a formação de uma nova turma do programa, desta vez com 66 mulheres refugiadas, das quais uma foi admitida.

“Hoje nós temos três refugiadas trabalhando na companhia e poderíamos ter mais se não fosse por um ponto: a maior parte delas é mãe solo.”

Segundo Tamura, as iniciativas com refugiados fazem parte da agenda ESG da Unidas, que possui metas a serem atingidas até 2023 para aumentar o número de pessoas negras e com mais de 50 anos na companhia e a quantidade de mulheres em posição de liderança.

“A gente não tem meta para refugiados, mas entendemos que contribui com a diversidade. Há três anos, estamos trabalhando com esses indicadores e sensibilizando as lideranças, porque acreditamos que equipes mais diversas tomam melhores decisões e enriquecem as discussões”, afirma.

De acordo com ela, a experiência tem sido muito positiva. “A gente percebe que o nível de engajamento é altíssimo. Muito rapidamente elas respondem aos treinamentos e a todo o investimento em capacitação”, diz.

É o que também comenta Lilian. Na visão dela, a inclusão de pessoas refugiadas é uma situação de ganha-ganha.

“Por um lado, o refugiado ganha uma oportunidade de começar do zero, porque eles deixaram tudo no seu país de origem. Mas a gente também ganha em produtividade, em inovação, as pessoas trazem coisas novas, ideias diferentes e a gente aprende com eles”, afirma a executiva da Sodexo.

Lilian também destaca a gratidão que os funcionários têm com a oportunidade dada, o que se reflete no tempo de permanência na empresa. “É difícil que eles queiram sair. A gente tem um turnover [rotatividade] menor de refugiados em relação a pessoas não-refugiadas”, diz.

No entanto, a situação frágil das pessoas refugiadas também pode ser pretexto para exploração e trabalhos degradantes, como destaca a procuradora Lys Sobral, coordenadora nacional da Conaete (Coordenadoria Nacional de Erradicação do Trabalho e Enfrentamento ao Tráfico de Pessoas), do Ministério Público do Trabalho.

“Os elementos da escravidão contemporânea são sempre o abuso do poder econômico, a ambição e a impunidade de quem explora e, por outro lado, a situação de extrema vulnerabilidade socioeconômica de quem é explorado”, afirma.

Segundo a procuradora, entre os grupos vulneráveis, como povos originários, trabalhadores rurais e comunidades ribeirinhas, os refugiados merecem atenção especial por estarem numa condição ainda mais delicada.

“A gente enfrenta argumentos de que a pessoa poderia sair daquele trabalho [se quisesse]. Mas ela não teve uma escolha real, e quando a gente fala de refugiados, é a situação extrema da extrema, por questões do idioma, da documentação”, diz.

É o que também ressalta Paulo Sergio Almeida, da Acnur: alguns refugiados chegam sem documentos e acabam se sujeitando a condições trabalhistas ruins por medo de serem denunciados.

“São pessoas que não conhecem a legislação do Brasil, não sabem como é a cultura do mercado de trabalho, não sabem se determinadas práticas são aceitáveis. Por outro lado, são pessoas com uma necessidade muito grande de trabalhar”, afirma.

“Se de um lado você tem o engajamento positivo das empresas, por outro você tem um histórico de situações de exploração.”

Fontes: OIM Brasil (Organização Internacional para as Migrações), Tent, Missão Paz e Acnur (Agência da ONU para Refugiados)

Fonte: Acesse Aqui o Link da Matéria Original

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

dez + 9 =